terça-feira, 10 de junho de 2008

microcrises - 33


Sou vítima dos comentários alheios porque faço o que tenho vontade eu não dou sastifação à ninguém. Ando pela rua com as pernas de fora e as costas à mostra para quem quiser ver. E eles olham, e os olhos deles me seguem até minhas pernas grossas entrarem no número 33 da rua dos passos. No elevador, meus seios enormes tiram a atenção dos homens e das mulheres. Sinto o desejo e a inveja e me sinto bem. No escritório, tiro os sapatos de salto fino que me elevam 15 cm do solo. Piso no carpete branco felpudo com os pés descalços e me sinto bem. Na sala do doutor Onofre, o frio piso de mármore faz os bicos dos meus seios saltarem. Já sem as calças, doutor Onofre aguarda que eu sirva o seu café-da-manhã. Mais alguns meses, jogo a marmita no lixo e só como em restaurante por quilo.

microcrises:entre o céu, o inverno e o sorvete de creme.


Imagem de Becca Jones

Deixo você ir longe, solto a pipa, fecho meu parque de diversões. Aqui de cima não vejo montanhas-russas, nem trens-fantasma. Palhaços correm atrás de criancinhas indefesas. Este não é um bom lugar para brincar. Dou linha, invento uma vida, pego o vento norte, é disso que preciso. No jogo da amarelinha, o céu e o inferno estão a um passo. O fundo é falso e sei que vou cair. Ou minhas asas são de sorvete de creme ou é o chão que atrai tudo que sobe depressa demais.

microcrises : cor de fundo



Quando nasci era transparente. Então, recebi - sem pedir ou escolher -, uma camada de tinta branca, de um branco sujo, contaminado. Esta passou a ser a minha cor de fundo, a primeira demão do que eu viria a ser. Depois, a vida me encheu de outras centenas de cores vibrantes, e vivi cada uma delas, sem nunca conseguir me livrar deste branco que não é branco, do pincel imundo que me lambeu, como se já me conhecesse. Fui amarelo uma vez: sorria flores, exalava odores e tinha todos ao meu redor, sob controle. Ganhei tons de lilás e violeta, e conquistei tudo o que desejei, mas nunca o suficiente. Nos momentos opacos, de texturas indefinidas, me escondia na terceira gaveta da cômoda do meu quarto, porque as pessoas sempre bisbilhotam a primeira gaveta, a segunda, mas nunca a terceira. Ficava ali, em silêncio na escuridão claustrofóbica, até minhas cores voltarem: um laranja, um vermelho intenso, até um azul céu era aceitável. Não por acaso, todos me viam assim, radiante e feliz porque era só isso o que eu mostrava. Ninguém sabia que carregava comigo aquele branco maculado, impregnado e encardido. Na maioria das vezes, enganava muito bem. Mas alguns, sei lá como, conseguiam ver através das minhas camadas. Separavam todas as nuances até chegar na parede desbotada que também sou eu. Nesses momentos, acuada, tinjo os olhos de negro, as unhas de vermelho , e tudo que já havia sido um começo, se tornava um fim. O que construí, passível de ser destruído. Aciono meus mecanismos automáticos de defesa e faço boca, narinas e demais orifícios do meu corpo, expelirem minha cor verdadeira, negativada por séculos de servidão e tirania. Só me resta agora também lamber com meu pincel, a essência de quem ousou se aproximar demais. A maldição assim se perpetua e meu segredo permanece seguro, ao menos por enquanto. A vida pode ser facilmente renovada com uma nova camada de tinta fresca. De preferência, em tons de rosa, porque mesmo uma alma impura precisa de um pouco de amor.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

microcrises : capote



Enquanto meu coração pulsava exposto sobre a mesa, ela se comportava como um eletrodoméstico. Algo muito parecido com um ser humano, sem ser. O olhar frio construía mais um punhal de gelo. Mas havia pouco de mim alí para ser ferido. Recolhi meus restos e saí batendo porta, a centenas de quilômetros por hora. Só queria me afastar o mais rápido possível. Na pressa, nem vi a casca de banana que sempre cruza o meu caminho quando tudo fica sério e pesado demais.

sábado, 24 de maio de 2008

microcrises: fora do corpo


Imagem de Juliana Costa

Minha alma tirou férias sem data para voltar. Sem ela, ficar só já não é mais tão divertido. Dor igual a da mãe que perde o filho, do amor que não encontra lugar. Em que outro corpo esta minha alma maldita pode estar?

segunda-feira, 28 de abril de 2008

microcrises : realidades delirantes


Imagem de Luisão Pereira

Algo que percorre todo meu corpo não pode ser nada de absoluto. Mesmo sendo livre para escolher eu não o faço. Fico a imaginar navios fantasmas e realidades delirantes. A vida prática é tão mais fácil. Por que então ela nunca me diverte? Comprei algo novo hoje de manhã mas, após o almoço, já me sentia um velho.

sábado, 12 de abril de 2008

microcrises : borboletas e gafanhotos


Imagem de Daniela Cruz

Ao te ver sangrar até os olhos encherem d’água, no momento em que a dor dissolve tudo em que acredito, me despeço do rancor e da memória dos tempos. Quando o suor do teu corpo desenha no meu corpo, borboletas e gafanhotos. E se isto te traz a mim quase que por engano, o que fazer? Abraça-me com a intensidade dos começos, enquanto giro sobre meu próprio eixo, até perder o chão. Inseto na luz, a rodopiar feito um satélite em volta de ti, amor. O que restará de mim depois que você se for?

microcrises : tic-tac


Imagem de Diego Paris

Quando não tenho nada pra fazer eu não faço. Mas aí tem sempre um que vem com idéia que não consegue guardar para si. Gente que não consegue parar, absolutamente.  De onde eu venho, as luas giram no sentindo contrário ao do sol. O tempo não vitimiza ninguém. Mas aqui, me sinto culpado de olhar para o nada de onde vim e para onde voltarei. Não vejo a hora, nem os relógios.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

microcrises : última chance


Imagem de Amandy Gibbons

Sim , esta foi minha última chance. Apesar da pouco idade, reconheço quando o fim está próximo. Algo muda no céu, o ar descarrega partículas elétricas que vibram de forma aleatória. Sinais se revelam simultaneamente, explodem como pipoca no microondas. Vejo, ao acordar, que a luz da manhã está diferente, que o café não tem o mesmo gosto, que a porta de saída se afasta a cada passo que dou em direção a ela. O corredor se alonga até virar uma estrada estreita e pouco iluminada. O telefone toca, não atendo. O telefone toca de novo e de novo e de novo, enquanto eu continuo dando sinal de ocupado. Meu peito vibra de ansiedade. Não tenho medo de dinossauros, mamutes ou de tigres de dentes de sabre. Tenho sim pavor do que me acorrenta à essa vida ordinária. Amarras invisíveis que ora me aproximam, ora me afastam deste jogo perverso de querer ser feliz a todo custo.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

microcrises : desidrata


OP1- foto Ricardo Ferreira

Seja filha da puta com quem você ama e seja feliz. Ajuda-te, como se fosse a pessoa mais importante desta ilha naufragada. Desidrata. Deixa secar ao sol o último suspiro de confiança. Por que não? Atira todas as suas cicatrizes no corpo são.